ARTE DA VIDA.COM :: PORQUE VIVER É UMA ARTE
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Desde que saí do hospital, fui direto pra ABBR (Associação brasileira beneficente de reabilitação), onde fiquei internado de abril a novembro de 2002. Foi um período de conhecimento sobre minha condição, aprendizado com experiências de outras pessoas, expectativas de uma melhora imediata, readaptação dos meus hábitos, muita fisioterapia, busca de informações de tratamentos disponíveis, novas amizades...

Demorei a ir os finais de semana para casa primeiramente pelo meu estado clínico e depois por um pouco de medo. Mas depois que comecei a ir pra casa da minha tia (porque minha casa tinha escada), foi maravilhoso voltar a comer a comida caseira, respirar outro ambiente fora do hospital.

Lembro-me da primeira vez que fui ao cinema depois do acidente. Sinceramente muito desconfortável, pois tive que vencer a barreira não da vergonha, mas do medo de voltar pra aquele mundo que eu já tinha esquecido um pouco de como era (pessoas, barulho, luz...), devido ao tempo que passei de um hospital ao outro.

Eu jogava vôlei de praia, era federado e gostava muito, mas tinha parado tudo, pois um mês antes do acidente eu ia começar a trabalhar para ajudar minha mãe. Mas sofri o acidente, junto a isso minha mãe perdeu os dois empregos que ela trabalhava (um em uma escola que estudei que faliu e outro em um escritório que ela não pode mais ir), e casa que morávamos tinha escadas e tivemos que mudar também.

Um dia desses, deitado, conversando com Deus eu falei: "Deus, eu não vejo como posso fazer para trabalhar e ganhar dinheiro com meu trabalho no momento, já que não consigo movimentar minhas pernas e meus braços, mas também sei que o Senhor pode todas as coisas, muito mais que eu imagino, então entrego a ti esse desejo, em Nome de Jesus, Amém!"

Umas semanas depois comecei a pintar.

Era novembro de 2002, fui para o Sarah em Brasília. Chegando lá estranhei um pouco o clima seco, mas foi um período muito bom, onde conheci e troquei experiências com pessoas de vários estados; sotaques diferentes, costumes, enfim. Lá também fiz muita fisioterapia, exames, aulas e informações sobre o corpo, adaptações.

Lá em Brasília tive a primeira experiência com a pintura, já tinha visto e ouvido falar de pessoas que usavam a boca ou pés para pintar, mas achava inconcebível pra mim, já que antes do acidente era péssimo em qualquer tipo de desenho ou pintura.

Eu via todos os outros pacientes fazendo algum tipo de atividade artesanal e eu era o único que não podia participar, pois não movimentava os braços. Eu queria preencher o tempo, então falei com a terapeuta que colocasse um pincel na minha boca, ela me olhou um pouco incrédula, mas fez dessa forma e me aventurei dar minhas primeiras pinceladas, mas foi só um dia, pois já estava no período de alta. Na verdade, esse acontecimento era a resposta de Deus a minha oração. Passei o natal e ano novo lá, até minha alta, em janeiro.

De volta ao Rio muitas saudades, novidades e um mês até voltar à ABBR novamente. Lá na ABBR comecei a me dedicar pintura, com grande apoio do instrutor Gilson claro que no começo meio duvidoso e sem imaginar o que a pintura iria representar para mim e a proporção que iria tomar em minha vida.

Eu sempre gostei de fazer o melhor em tudo que estava em minhas mãos e com a pintura não foi diferente. Fiquei três meses pintando minha primeira tela em guache e cheguei a querer parar, pois se antes com as mãos eu não tinha qualquer habilidade, quanto menos com a boca.

Comecei a pintar com tinta acrílica e numa manhã voltando da fisioterapia com minha segunda tela no colo, um médico disse: "Que tela linda, por quanto você vende?"

Dei um sorriso, meio incrédulo, como quem não leva a sério. Ele então pôs um dinheiro no meu bolso e eu esfuziante entendi o sinal de Deus. Comecei a me dedicar horas e horas por dia para realmente aperfeiçoar a técnica, só parava para me alimentar e a noite dormir. Minha mãe reclamava do excesso, mas eu sentia a direção para naquele momento agir assim.

Comecei então a vender telas e fazer exposições.

Fiquei interno até setembro quando tive alta da internação, mas continuei fazendo tratamento lá duas vezes por semana como faço até hoje. O tempo foi passando e eu transpus o que eram barreiras para mim.

Em 2005 fiz a primeira demonstração de pintura ao vivo e 2006 dei minha primeira palestra.

Fui aprovado na APBP (associação de pintores com a boca e com os pés) e comecei a fazer viagens e ir a colégios, faculdades, empresas, ONGS, instituições... Dando palestras e fazendo demonstrações de pintura ao vivo.

Estou num processo de conquistas e reconquistas em minha vida. Me batizei na igreja batista onde congrego atualmente, retornei os estudos que tinha sido interrompido, enfim esta é um pouco da minha trajetória, resumida é claro.
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